O LEGADO JUDAICO QUE COIMBRA VOLTOU A DESCOBRIR

O LEGADO JUDAICO QUE COIMBRA VOLTOU A DESCOBRIR

Escondido durante séculos sob um edifício da Baixa de Coimbra, um antigo banho ritual judaico voltou a trazer à superfície uma parte da história da cidade que o tempo quase apagou. A abertura ao público do Mikveh reforça a valorização da herança judaica de Coimbra e convida a redescobrir uma comunidade que marcou profundamente a sua identidade.

Durante séculos, a história da presença judaica em Coimbra permaneceu inscrita nas ruas, nos topónimos e na memória documental da cidade. Poucos vestígios materiais sobreviveram às transformações urbanas, às perseguições religiosas e ao apagamento progressivo de uma comunidade que desempenhou um papel relevante na construção da identidade coimbrã. A descoberta e recente abertura ao público do Mikveh vieram devolver visibilidade a esse património e reforçar Coimbra como um dos principais centros da herança judaica em Portugal.

UMA COMUNIDADE ENRAIZADA NA HISTÓRIA DE COIMBRA

A presença judaica em Coimbra encontra-se documentada desde, pelo menos, o século X, constituindo um dos mais antigos testemunhos desta comunidade em território português. Beneficiando da proteção régia, particularmente durante os primeiros séculos da monarquia, a comunidade judaica desenvolveu uma intensa atividade económica, científica e cultural, integrando mercadores, médicos, artesãos, escribas e eruditos que contribuíram para a prosperidade da cidade. O centro desta vivência comunitária localizava-se na Judiaria Velha, situada na encosta noroeste da cidade medieval, nas proximidades das atuais ruas Corpo de Deus, Visconde da Luz e Martins de Carvalho. Mais do que um bairro residencial, tratava-se de um espaço dotado de estruturas religiosas, educativas, comerciais e assistenciais, refletindo a autonomia de que estas comunidades beneficiavam na Idade Média.

A reorganização urbana promovida por D. Fernando, por volta de 1370, conduziu à deslocação da comunidade para uma nova área da cidade, a Judiaria Nova. Este foi o início de um período de crescente segregação que culminaria, no final do século XV, com a expulsão decretada por D. Manuel I e, mais tarde, com a Inquisição.

O MIKVEH: UM ESPAÇO DE PURIFICAÇÃO E IDENTIDADE

Foi neste contexto histórico que surgiu o Mikveh de Coimbra, um dos mais relevantes vestígios arqueológicos associados ao quotidiano religioso judaico em Portugal. A palavra hebraica Mikveh designa a estrutura onde ocorre o banho ritual de purificação utilizado no judaísmo para cumprir determinadas prescrições religiosas relacionadas com a pureza espiritual. Ao contrário de outras estruturas comunitárias, a construção de um Mikveh constituía frequentemente uma prioridade para as comunidades judaicas, uma vez que a sua existência era considerada indispensável à prática plena da vida religiosa.

Localizado na atual Rua Visconde da Luz, nº 21 (antiga Rua do Coruche), no limite poente da antiga Judiaria Velha, o Mikveh distingue-se pela sua notável integridade física. Escavado diretamente na rocha, a cerca de três metros de profundidade, conserva a antecâmara de preparação e a piscina ritual alimentada por água de nascente permanente, requisito essencial para a sua validade religiosa.

O acesso à piscina faz-se através de sete degraus, número carregado de simbolismo na tradição judaica.

A musealização e abertura ao público, concretizada a 18 de maio de 2026, devolvem agora este espaço à cidade e aos seus visitantes.

UMA DESCOBERTA INESPERADA

A revelação deste património ocorreu de forma fortuita em dezembro de 2013. Durante trabalhos motivados por uma rotura de canalização, técnicos municipais abriram uma pequena porta metálica escondida sob um vão de escadas. Por detrás dela encontrava-se uma cavidade escavada na rocha onde a água continuava a correr, preservando um espaço que permanecera oculto durante séculos.

A importância científica do achado motivou a constituição de uma equipa multidisciplinar que envolveu o Município de Coimbra, a Universidade de Coimbra, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro e diversos especialistas em património judaico. Os trabalhos incluíram estudos geológicos e geoarqueológicos, levantamentos tridimensionais e prospeções com georadar, permitindo validar a autenticidade e relevância do achado.

A própria Comunidade Israelita de Lisboa reconheceu o Mikveh enquanto equipamento ritual judaico, validado do ponto de vista religioso, conferindo-lhe um significado particularmente relevante no contexto do património judaico nacional.


DA INVESTIGAÇÃO À VALORIZAÇÃO PATRIMONIAL

A abertura ao público representa o culminar de mais de uma década de investigação, conservação e musealização. Mais do que a recuperação de um sítio arqueológico, o projeto integra uma estratégia mais ampla de valorização da herança judaica de Coimbra. Neste percurso assume particular importância a exposição permanente “Judeus de Coimbra: da tolerância à perseguição, memórias e materialidades”, instalada no Edifício da Inquisição, espaço que oferece o enquadramento histórico necessário para compreender a evolução da presença judaica na cidade e os processos de expulsão que marcaram o final da Idade Média e o período moderno.

Para aprofundar a visita, está também disponível a aplicação gratuita “Judeus de Coimbra”, para Android e iOS, que funciona como guia multimédia da exposição, bem como a plataforma digital do Mikveh, em mikveh. cm-coimbra.pt, com conteúdos históricos, científicos e visita virtual. A estes recursos junta-se ainda a plataforma digital GuideSofia, que integra Coimbra nos circuitos europeus de património cultural.

UM PATRIMÓNIO COM PROJEÇÃO INTERNACIONAL

A recuperação do Mikveh enquadra-se na estratégia de valorização internacional da oferta cultural de Coimbra. A cidade integra a Rede de Judiarias de Portugal e promove roteiros que articulam o Mikveh, o Edifício da Inquisição, os antigos espaços das judiarias e outros testemunhos da memória judaica local.

Paralelamente, Coimbra participa no programa europeu JEWELS TOUR – Jewish Heritage as Leverage for Sustainable Tourism, cofinanciado pelo Interreg Europe, que reúne cidades de vários países com o objetivo de promover o património judaico como motor de desenvolvimento cultural e turístico sustentável, através da criação de rotas, partilha de boas práticas e desenvolvimento de políticas integradas de valorização patrimonial.

As visitas ao Mikveh de Coimbra decorrem em grupos reduzidos e acompanhadas por elementos da equipa técnica, assegurando a preservação do espaço e uma adequada contextualização histórica. As marcações são asseguradas pelo Museu Municipal de Coimbra, por telefone (239 840 754 e 239 857 525) ou e-mail (mmc.mikveh@cm-coimbra.pt).

mikveh.cm-coimbra.pt
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