EDITORIAL – EDIÇÃO 18 | AGOSTO 2026

EDITORIAL – EDIÇÃO 18 | AGOSTO 2026

O verão é uma estação de regressos. Alguns muito ruidosos, carregados de fogo de artifício que perturba os animais e os ouvidos mais sensíveis, outros muito mais silenciosos, mas nem por isso mais pacíficos. Regressar a nós próprios, quando finalmente temos tempo livre para não fazer nada, pode ser uma experiência dura. Sobretudo para aqueles que se escondem na superficialidade da sua imagem social fabricada.

Mas a vantagem de ter tempo para não perder tempo é precisamente poder escolher que quantidade e qualidade de atenção dar a cada coisa. Deixar de lado o joio, o supérfluo, e colher apenas o trigo, aquilo que nos faz sorrir. Parti ao meio esta expressão mais habitual para falar de critério, porque um dos meus regressos emocionais de verão faz-se inevitavelmente no campo. No meio do feno, já cortado, a secar no lameiro, à espera de ser enfardado. É uma memória inevitável, ainda cheia de gente, nesta altura do ano.

Como é igualmente inevitável lembrar-me sempre destes versos de Zeca Afonso, de ‘A Morte Saiu à Rua’, quando penso num campo cheio de gramíneas. “A foice duma ceifeira de Portugal” tem uma força na voz dele porque junta o braço, a mulher, o utensílio, a paisagem, um interior inteiro. É a memória de um país onde os gestos tinham ainda uma relação direta com a terra e com o tempo.

Mas aquela foice não era apenas uma imagem de trabalho, era uma denúncia. A canção nasceu da morte de José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961, e transformou uma paisagem rural de trabalho num lugar de memória. “O vento nas canas do canavial”, “o som da bigorna como um clarim do céu”, cada frase, cada imagem mais forte que a anterior, para que uma morte não seja esquecida.

O vento, com a ajuda paciente da água, erode montes e serras, falésias e costas. Molda a paisagem, abre sulcos, arrasta consigo o desenho que vai fazendo do mundo. Se há coisa que o vento não leva, são as palavras. Boas, más, criadoras ou assassinas. Podemos sempre escolher o que fazer com elas. Com aquelas que nos dão, com as que carregamos dentro de nós, com as que dedicamos a quem homenageamos.

As palavras sobrevivem a tudo, até as das línguas mortas. É nelas que está a memória das palavras e das línguas de hoje. São uma das poucas formas que encontrámos para atravessar o tempo sem desaparecer completamente.

É também por isso que escrever, em qualquer lado, é sempre um privilégio maior. Seja onde for. Até as memórias morrem. Por isso, que fiquem as palavras.

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