EDITORIAL – EDIÇÃO 16 | MARÇO 2026

EDITORIAL – EDIÇÃO 16 | MARÇO 2026

Foi um inverno duro este que agora se vai despedindo. Chuva sem parar, vento persistente com rajadas de intensidade rara, redes interrompidas, árvores arrancadas pela raiz. No centro do país, sobretudo na faixa que atravessa Leiria e o litoral adjacente, o vento foi particularmente destruidor. Noutras bacias, particularmente no Mondego e no Sado, a água voltou a inundar. Houve mortes a lamentar, um rasto de destruição e um sentimento de impotência e cansaço.

Portugal conhece este padrão. Conhece a força do Atlântico, a instabilidade dos rios, a vulnerabilidade das encostas. Ainda assim, cada inverno mais difícil convoca algo que ultrapassa o boletim meteorológico… a memória.

Há 25 anos, o inverno também foi violento, não tanto pelo vento, mas pela chuva interminável. No dia 4 de março de 2001, depois de semanas de precipitação intensa e caudais elevados, a ponte Hintze Ribeiro, que ligava Entre-os-Rios a Castelo de Paiva, colapsou sobre o Douro. Cinquenta e nove pessoas morreram. A erosão dos pilares estava identificada há anos. A manutenção era insuficiente e a Comissão de Inquérito confirmaria falhas graves de fiscalização e acompanhamento técnico. A água precipitou um desfecho anunciado.

Dois dias depois, o então ministro do Equipamento Social, Jorge Coelho, apresentou a demissão, num gesto raro de dignidade: “a culpa não pode morrer solteira”. A responsabilidade política não devolveu vidas, mas impediu que o acontecimento se diluísse na abstração. Castelo de Paiva deixou de ser apenas um nome no mapa para se tornar referência de uma ferida coletiva.

E terra nenhuma merece carregar tal peso para sempre.

A ponte caída foi levantada e recuperada, uma nova foi construída mesmo ao lado. Mas os acessos prometidos, ao grande Porto e a Penafiel, continuam por concluir.

O tempo cronológico separa 2001 de hoje com a factualidade dos números. O tempo vivido tem outra cadência. Há datas que permanecem latentes até que a experiência lhes acrescente densidade. Há lugares que deixam de ser coordenadas e passam a ser parte do mapa íntimo de cada um. A memória que importa é muito mais sedimentação do que mera repetição.

O inverno não replica tragédias, mas testa estruturas físicas e institucionais. Recorda que nenhuma obra é definitiva, nenhuma margem é absolutamente estável, nenhuma decisão é irrelevante.

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