UM QUARTO DE SÉCULO EM PORTUGAL

UM QUARTO DE SÉCULO EM PORTUGAL

O primeiro quarto do século XXI colocou Portugal diante de uma sequência de avanços e sobressaltos que moldaram a forma como o país se pensa a si próprio. Entre expansão económica e fragilidades estruturais, entre projeção cultural e desigualdade territorial, entre entusiasmo europeu e crises políticas, estes vinte e cinco anos compõem um retrato de modernização intensa mas incompleta, exigindo hoje uma maturidade capaz de transformar experiência em visão.

“A CULPA NÃO PODE MORRER SOLTEIRA”

O século começou com um país que conciliava confiança e vulnerabilidade. Portugal beneficiava ainda da energia acumulada pelos anos de financiamento europeu, mas carregava tensões que nem sempre eram reconhecidas. Em março de 2001, a queda da ponte que ligava Entre-os-Rios a Castelo de Paiva marcou uma das mais profundas tragédias da democracia. A rutura da infraestrutura, que levou consigo dezenas de vidas, expôs falhas graves na manutenção viária, no ordenamento do território e na capacidade de vigilância do Estado. A comoção nacional abriu um debate que ultrapassou a engenharia e entrou na esfera da responsabilidade política e ética, revelando que o país não estava preparado para lidar com as fragilidades que a modernização tinha deixado para trás. Na sequência da tragédia, o ministro Jorge Coelho apresentou de imediato a demissão, assumindo que “a culpa não pode morrer solteira”.

O “PÂNTANO” E O “PAÍS DE TANGA”

Meses depois, a derrota do Partido Socialista nas autárquicas levou António Guterres a apresentar a demissão. A declaração ficou inscrita na memória pública. Disse que saía para evitar que o país entrasse num “pântano político” e que o clima de ingovernabilidade acabasse por prejudicar ainda mais a sociedade. Foi uma demissão rara no sistema político português e marcou a abertura de um novo ciclo. As eleições antecipadas de 2002 deram vitória a Durão Barroso, que assumiu o Governo num contexto económico tenso. Pouco depois, revelou-se que as contas públicas estavam longe da solidez apresentada e que havia um desvio significativo no défice. O ambiente político condensou-se numa expressão que se tornou símbolo desse período: “país de tanga”. Esta imagem, repetida e disputada, sintetizou uma perceção de fragilidade nacional que viria a acompanhar a década.

A AUSTERIDADE E OS ANOS DA TROIKA

A partir daí, Portugal seguiu um caminho oscilante. A economia cresceu lentamente, a produtividade manteve-se baixa e o país preparava-se para entrar na maior crise financeira das últimas décadas. Entre 2008 e 2014, Portugal enfrentou um período de austeridade severa, marcado pela intervenção da troika, pelo aumento abrupto do desemprego, pela quebra de rendimento e pela desconfiança nas instituições. Muitas famílias perderam segurança, milhares de jovens emigraram e a polarização social ganhou espaço. Ainda assim, o país atravessou esse período sem rutura institucional e com uma capacidade de resistência que surpreendeu observadores externos. A democracia manteve-se funcional num cenário de pressão económica extrema, revelando uma maturidade cívica que o próprio país nem sempre reconhece.

História