A identidade de um país mede-se também pela sua herança natural. Em Portugal, um património genético de valor incalculável resiste nas pastagens, nos montes e nos vales: as raças de animais autóctones.
De norte a sul do país, um impressionante leque de bovinos, ovinos, caprinos, suínos, equídeos, canídeos e galináceos constitui um capital biológico fundamental. Estas raças, perfeitamente ajustadas aos ecossistemas locais, foram durante gerações a força motriz da agricultura, a fonte de alimento, o motor das deslocações e a matéria-prima de lanifícios, curtumes e outros ofícios rurais. Hoje, enfrentam o desafio da globalização e da uniformização genética, mas um esforço concertado entre criadores, cientistas, universidades e autoridades públicas luta por manter este património vivo.
GUARDIÕES DAS MONTANHAS E DOS VALES
Nos bovinos, a diversidade é vasta e orgulhosamente regional. No Norte, a Raça Barrosã impõe-se pela monumentalidade dos seus chifres em lira, um ícone da paisagem do Minho e de Trás-os-Montes. Utilizada historicamente para o trabalho agrícola, é hoje celebrada sobretudo pela sua carne com Denominação de Origem Protegida (DOP). Na mesma região, a Mirandesa, de pelagem castanha e temperamento dócil, está intrinsecamente ligada ao Planalto Mirandês, dando origem à afamada Posta Mirandesa (DOP). Mais a sul, a Arouquesa, de porte mais pequeno, demonstra uma extraordinária capacidade de adaptação aos terrenos acidentados do Maciço da Gralheira, sendo valorizada tanto pelo seu labor como pela qualidade superior da carne.
Outras raças bovinas portuguesas autóctones, como a Minhota, a Mertolenga, a Maronesa, a Alentejana, a Cachena ou a Marinhoa, espelham a variedade de geografias e culturas rurais do país, do planalto transmontano às planícies alentejanas, das encostas do Gerês aos campos do Baixo Mondego.
Entre os ovinos e caprinos, a sua importância económica e gastronómica é indiscutível. A Ovelha Serra da Estrela é talvez o exemplo mais emblemático: o seu leite é a matéria-prima exclusiva do Queijo Serra da Estrela (DOP), um dos produtos mais nobres da nossa mesa. Mas há dezenas de outras raças que sustentam queijarias e tradições pastorícias: Churra Galega Mirandesa, Bordaleira de Entre-Douro-e-Minho, Merino Branco, Campaniça, Churra do Campo, entre outras.

Nas cabras, destaca-se a Cabra Serrana, uma raça rústica e resiliente, criada nas serras do Norte e Centro de Portugal, essencial para a produção de queijo e de cabrito de excelência. Mas há também a Cabra Charnequeira, a Preta de Montesinho, a Algarvia e a Bravia, sinais vivos da rusticidade lusa nas zonas áridas e de montanha.
Nos suínos, duas raças autóctones destacam-se. A norte, o Porco Bísaro sobreviveu às mudanças de paisagem alimentar e é hoje uma raça em franca recuperação, fundamental na confeção de fumeiro tradicional transmontano — da alheira ao salpicão, há muito de Bísaro no que cheira (e sabe) a Portugal.
O Porco Alentejano, de origem ibérica, foi durante séculos o pilar da economia rural alentejana. Alimentando-se de bolotas sob a copa da azinheira e do sobreiro, é o produtor nativo do presunto de porco preto, que orgulhosamente ostenta o selo DOP.
DO TRABALHO RURAL À FAMA INTERNACIONAL
Entre os equídeos, Portugal conta com dois embaixadores excecionais em extremos opostos da pirâmide equestre. O Puro Sangue Lusitano, cavalo de sela de nobre linhagem, destaca-se pela coragem, pela inteligência e por um porte que o faz brilhar tanto na alta escola de equitação como nas arenas da tauromaquia. É talvez o animal português mais internacional. Em contraste, o Burro de Miranda, pacato e resiliente, foi durante gerações o infatigável companheiro das populações rurais transmontanas. Hoje é uma raça em risco que está a ser recuperada com dedicação exemplar. Com ele, resistem também o Burro da Graciosa, nos Açores, e o ainda pouco conhecido Pónei da Terceira, também em processo de salvaguarda.
As raças caninas autóctones portuguesas são funcionais, moldadas por séculos de trabalho, clima e necessidade. O Cão da Serra da Estrela, imponente e leal, reina nas serranias como guardião de rebanhos, nobre e desconfiado, mas um fiel defensor contra predadores antigos e modernos. O Cão de Água Português, atlético e perspicaz, foi durante séculos o parceiro inseparável dos pescadores algarvios. A sua pelagem densamente encaracolada e o apurado instinto para mergulho valeram-lhe um lugar de carinho na história… e mesmo na história norte-americana, quando um exemplar desta raça viveu na Casa Branca com a família Obama.

Mas o “clube dos nativos de quatro patas” vai mais longe: o Cão de Castro Laboreiro, guardião austero do Norte; o Rafeiro do Alentejo, vigilante das herdades de planície; o Cão da Serra de Aires, pastor incansável e elástico, de pelo desgrenhado e movimentos quase felinos; e o Podengo Português, o nosso cão de caça em três tamanhos e dois estilos de pelo.
TAMBÉM AS AVES “FALAM” PORTUGUÊS
O universo avícola também participa nesta biodiversidade patrimonial. A Galinha Pedrês Portuguesa, a Preta Lusitânica e a Preta do Campo e são animais de dupla aptidão (carne e ovos), cuja rusticidade e resistência justificam o seu resgate em quintas, cooperativas e hortas familiares. Nalgumas regiões, o Peru Preto mantém-se como ave de eleição para refeições festivas e tradições de Natal.
UM ESFORÇO DE PRESERVAÇÃO CONTÍNUO
A proteção deste património genético é uma tarefa complexa e inacabada. A Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) gere os livros genealógicos das raças reconhecidas, assegurando a sua fiabilidade, enquanto as associações de criadores e as universidades agrárias trabalham no território para promover o melhoramento genético adequado, evitar a consanguinidade e inovar sem descaracterizar.
A valorização dos produtos derivados destas raças (carne, leite, queijo, lã, peles) através de selos de qualidade como a Denominação de Origem Protegida (DOP) ou a Indicação Geográfica Protegida (IGP) é uma das estratégias fundamentais para garantir a sua viabilidade económica. O que chega ao prato pode salvar o que resiste no pasto. Preservar as raças autóctones não é um capricho saudosista. É um investimento consciente na biodiversidade, no desenvolvimento rural sustentável e na identidade de um país que se quer inteiro, nos seus sotaques e nos seus animais.