Em poucos sítios me senti tão livre e seguro, quando era miúdo, como rodeado de vacas nos lameiros e montes do Barroso. As vacas barrosãs têm uma ternura desarmante no olhar, contrastando (ou talvez não) com o seu imenso tamanho e força muscular. Todas tinham nome, personalidade vincada, e eram tratadas com um carinho que não ficava aquém do que se dedica a quem vive connosco dentro de casa. As suas cortes ficavam por baixo dos quartos. De noite, no Barroso antigo, adormecia-se com o cheiro e o calor dos animais a subir pelo soalho. Aos olhos de uma criança curiosa e guicha*, como se dizia para aquelas bandas, aqueles animais eram modelos a seguir, uma forma superior de existir, só suplantada pelas árvores centenárias.
Há um número que não me sai da cabeça desde que comecei a preparar esta edição. Portugal perdeu, nas últimas quatro décadas, qualquer coisa como um terço da sua superfície agrícola útil. Por uma ideia de civilização que decidiu, sem grande debate, que saber trabalhar a terra era coisa de quem não tinha tido outra oportunidade. O abandono rural foi uma política cultural, mesmo quando ninguém a declarou como tal. O interior esvaziou-se devagarinho, como se esvaziam as coisas quando não há drama suficiente para fazer notícia.
A ONU declarou 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Há qualquer coisa de simultaneamente justo e irónico nestas declarações. Chegam sempre depois da casa ardida, com toda a solenidade de quem acaba de descobrir o fogo. Mas chegam, e às vezes chegar tarde é melhor do que não chegar, sobretudo quando o que está em causa ainda existe, ainda respira, ainda tem gente nova disposta a aprender o que os mais velhos sabem e que não está escrito em lado nenhum.
As pastagens naturais portuguesas são isso, um saber não escrito. A Serra do Barroso, o Gerês, a Cabreira, o Alvão, a Estrela, e outras por aí abaixo. São paisagens moldadas durante séculos por uma relação entre o animal, o pastor e o terreno. O pastor que conhece cada vaca pelo andar, que sabe pelo comportamento do rebanho se o tempo vai mudar, que carrega um arquivo que não tem versão digital e que desaparece quando ele desaparece.
Estas páginas podem servir para ajudar a contrariar esse silêncio. Lembrar quem sempre ficou. Quem escolheu ficar, ou quem nunca equacionou outra coisa. Havia um saber que estava no gesto, no ritmo, na forma como se punha a mão no lombo de um animal e se ficava a saber, sem palavras, se estava bem ou mal. O Barroso (reconhecido pela FAO como Paisagem Agrícola Globalmente Importante) confirmou-me isso, e continua a fazê-lo, apesar de tudo o que sobre ele se projeta e cobiça em escritórios muito distantes daqueles montes. Cada um de nós guarda os seus territórios dentro de si. Como um pastor da memória, ciente de que só há um futuro desde que o património natural continue a existir.
*Guicho: regionalismo transmontano. Inteligente, vivo – numa palavra que não separa a inteligência da alegria de existir.

