RAÇAS AUTÓCTONES: ÍCONES TERRITORIAIS DE MIRANDA DO DOURO

RAÇAS AUTÓCTONES: ÍCONES TERRITORIAIS DE MIRANDA DO DOURO

No nordeste transmontano, onde o planalto molda modos de vida há séculos, Miranda do Douro preserva um território em que a relação entre comunidades, paisagem e raças autóctones continua a definir identidade e economia local.

Práticas de produção agropecuária tradicionais respeitaram, durante séculos, a dinâmica dos ecossistemas e moldaram a paisagem das Terras de Miranda. Neste contexto, as Raças Autóctones sobreviveram até aos dias de hoje e aportam valor acrescentado pela rusticidade, singularidade e capacidade de adaptação, perante ambientes adversos com parcos recursos, sendo motor que permitiu a sobrevivência de um povo que não baixou os braços diante das adversidades.

Os lameiros, de origem centenária, distribuem-se por condições ecológicas muito diversas, e constituem não só um importante património cultural e paisagístico, como também genético. A vitalidade e perpetuação dos lameiros e, com eles, a produção de raças autóctones, são recursos determinantes para o desenvolvimento económico e emblemas da ruralidade do concelho. Ao mesmo tempo, a integração e localização dos lameiros face aos outros elementos da paisagem de montanha – os baldios, as matas e florestas, os campos de cultivo de cereais, as hortas, as próprias povoações – criam uma estrutura paisagística multifuncional e de beleza rústica.

RAÇA BOVINA MIRANDESA

Os bovinos mirandeses são reconhecidos pela sua adaptação a condições ambientais árduas, com ambientes adversos e parcos recursos. É uma raça de dupla aptidão, tanto utilizada para a produção de carne como para trabalho, embora, atualmente, a sua principal função seja a produção de Carne Mirandesa DOP muito apreciada, pela sua qualidade e sabor. O nome de “raça bovina Mirandesa” deve-se à toponímia de Miranda do Douro, ou Terras de Miranda, o centro de irradiação da raça para outras regiões.

Longe vão os tempos em que vigorava apenas o sistema tradicional de semi-estabulação, em que os animais adultos “não trabalhados”, e os de trabalho, nas merecidas folgas, eram levados para os lameiros ou cerrados, como se diz em Miranda. As grandes manadas já não regressam aos estábulos por debaixo ou junto das casas de habitação; elas são apascentadas durante uma jornada diária e regressam, para amamentar as crias, recém-nascidas, por norma, para estábulos fora dos aglomerados populacionais. No sistema de exploração extensivo, em crescimento nos concelhos do Planalto Mirandês, os vitelos acompanham as mães, em pastoreio, até completarem a idade de 5-7 meses, sendo depois desmamados e engordados com recurso a fenos e cereais de colheita própria, triturados, ou concentrado aprovado pela entidade certificadora da DOP Carne Mirandesa. As mães praticam o pastoreio permanente e são suplementadas com fenos de aveia ou de erva, apenas nos meses de Inverno e durante o pico do verão.

RAÇA CHURRA GALEGA MIRANDESA

Remeter-nos à origem da raça Churra Galega Mirandesa é fazer uma longa viagem ao passado. Os celtas cruzaram as ovelhas autóctones com os carneiros que traziam, obtendo assim o primitivo tronco churro e o seu nome corresponde à toponímia da região de onde são originários, o Planalto Mirandês.

Tradicionalmente, o sistema de pastoreio é extensivo, “vivem de dia e de noite no campo, pernoitam nas cancelas para adubar as terras de cultura…” (Ortigosa, 1926). Este sistema é caraterizado por uma baixa concentração de animais, por unidade de área, mantendo a rusticidade que lhe é caraterística, bem-adaptados para percorrer as íngremes arribas cobertas de azinheiras, carvalhos, estevas e giestas, os lameiros elegantemente delineados por freixos, as pastagens vocacionadas para ferrãs ou aproveitando os restolhos, na época estival. São ainda direcionados para a sua alimentação todo o excedente das hortas e todos estes fatores, aliados às singularidades edafoclimáticas do Planalto Mirandês e ao crescimento lento dos cordeiros, proporcionam um produto de excelência com caraterísticas organoléticas únicas, o “Cordeiro Mirandês / Canhono Mirandês”, produto DOP. Também produzem lã, da qual advém o pardo e o burel, intimamente, conexo ao artesanato mirandês, como a Capa de Honras Mirandesa (Património Cultural Imaterial da UNESCO), indumentária de Miranda, usada em cerimónias oficiais.

A necessidade de manter o potencial genético derivado da raça Churra Galega Mirandesa, como aposta para a sua conservação e linhagem pura, determinou a fundação do Registo Zootécnico, criado em 1994 e a Entidade Gestora do Livro Genealógico é a Associação Nacional de Criadores de Ovinos da Raça Churra Galega Mirandesa (ACOM).

RAÇA ASININA DE MIRANDA, OU BURRO DE MIRANDA

Os burros, são animais domésticos que se alimentam de matéria orgânica seca e fibrosa, e conseguem aceder a locais remotos, inóspitos e rochosos, que seriam de difícil acesso à maquinaria para limpeza de terrenos. Adicionalmente, do ponto de vista ecológico, o impacto da ação do burro na paisagem é feito de uma forma gradual, quer para a flora e fauna, como para o próprio piso, uma vez que a carga dos animais é muito menor do que a de um trator que compacta o solo e promove a erosão.

A utilização de burros pertencentes à raça Asinina de Miranda permite não só reduzir a carga combustível e, consequentemente, o risco de ignição e propagação de fogos, como, também, reforçar a presença ativa destes animais no território, contribuindo para a sua conservação enquanto parte integrante do património biocultural da região do Nordeste Transmontano. A AEPGA – Associação para o Estudo e Proteção do Gado Asinino, tem em curso o projeto ASINIFIRE – Asininos na Prevenção de Incêndios para a Resiliência Ecológica, em parceria com o CIMO – Centro de Investigação de Montanha do Instituto Politécnico de Bragança, entre outras entidades, e uma parceria com a REN – Redes Energéticas Nacionais para a gestão de vegetação. Nesta abordagem, a composição das brigadas florestais com burros machos castrados, que não estão envolvidos no plano reprodutivo e formam bons grupos sociais, constitui também um uso sustentável e atual para estes animais, que contribui para a preservação da raça autóctone.

O burro de Miranda destaca-se, assim, como um elemento prestador de valiosos serviços de ecossistema na paisagem rural.

 www.cm-mdouro.pt
Agropecuária Destaques