Um estudo nacional revela que os produtos portugueses continuam a conquistar a confiança dos consumidores. Mais do que uma escolha racional, comprar o que é feito em Portugal parece ser, para muitos, uma forma discreta de afirmar identidade, preservar tradições e apoiar a economia nacional.
Vivemos numa economia global, onde um produto pode ser concebido num continente, fabricado noutro e chegar às nossas mãos depois de percorrer milhares de quilómetros. Ainda assim, quando chega o momento de decidir o que colocar no carrinho de compras, muitos portugueses continuam a olhar para a origem.
É essa uma das principais conclusões do estudo “Portugalidade, Hábitos de Compra de Produtos com Incorporação Nacional e Notoriedade da Marca Portugal Sou Eu”, coordenado por Helena Martins Gonçalves, professora do ISEG, que procurou compreender a relação dos consumidores com os produtos nacionais e com o conceito de portugalidade. Os resultados sugerem que esta é também uma questão de identidade.


Quando os participantes foram convidados a dizer o que mais associam a Portugal, surgiram palavras como “tradição, segurança, relações calorosas, liberdade e o reconhecimento internacional em determinadas áreas. Entre os produtos que mais rapidamente evocam o país destacam-se o vinho, o azeite, o peixe, o bacalhau e o pastel de nata. Não é difícil perceber porquê. Representam séculos de história, de saber-fazer e de ligação ao território.
Essa perceção reflete-se depois nos hábitos de consumo. O estudo mostra que os portugueses compram regularmente produtos nacionais e fazem-no porque lhes reconhecem qualidade, confiança e autenticidade. A origem portuguesa é encarada como um fator diferenciador e não apenas como uma curiosidade inscrita na embalagem.

Ao contrário da ideia de que o preço determina sempre a decisão de compra, muitos consumidores afirmam valorizar igualmente o impacto que essas escolhas têm na economia do país. Comprar um produto português significa, para muitos, contribuir para o emprego, para as empresas nacionais e para a preservação da capacidade produtiva instalada em Portugal.
Outro dado relevante prende-se com a satisfação. A grande maioria dos inquiridos manifesta-se satisfeita com os produtos portugueses que adquire, um indicador que reforça a confiança construída ao longo dos anos por inúmeras marcas nacionais. Essa relação parece suficientemente sólida para atravessar o tempo. Mais de metade dos participantes afirma que continuará a comprar aproximadamente a mesma quantidade de produtos portugueses, enquanto cerca de 42% admite mesmo aumentar esse consumo. Apenas uma fração residual prevê reduzi-lo.


Há, contudo, um desafio que permanece. Apesar da valorização dos produtos nacionais, a notoriedade espontânea da marca Portugal Sou Eu continua relativamente limitada. Muitos consumidores reconhecem o selo quando o veem, mas poucos o identificam de forma imediata sem qualquer ajuda. Existe, por isso, margem para reforçar a comunicação de uma iniciativa que procura precisamente tornar mais visível aquilo que é produzido em Portugal.
A portugalidade não se manifesta apenas nos monumentos, na língua, na literatura ou nas tradições populares. Também se revela nos gestos mais simples do quotidiano. Da escolha de um vinho produzido no Douro, de um azeite transmontano, de um presunto alentejano, de um queijo da Serra, de uma conserva portuguesa ou de um têxtil fabricado no Vale do Ave.

São decisões aparentemente banais, repetidas milhares de vezes todos os dias, mas que ajudam a sustentar empresas, preservar competências, manter emprego e dar continuidade a um património económico e cultural construído ao longo de gerações.
Quanto mais o mundo se uniformiza, maior é o valor das pequenas escolhas que afirmam a identidade. Porque a portugalidade não vive apenas na memória do passado. Continua, todos os dias, a passar pela mesa, pelas lojas e pelas mãos de quem escolhe, consciente ou intuitivamente, aquilo que é feito em Portugal.

