As Nações Unidas declararam 2026 como o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores. Uma iniciativa coordenada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) que pretende chamar a atenção para um dos sistemas ecológicos e humanos mais importantes do planeta.
As pastagens ocupam cerca de metade da superfície terrestre e sustentam milhões de pessoas em todo o mundo. Mais do que simples áreas destinadas ao pastoreio, estes territórios desempenham um papel central na conservação da biodiversidade, na fertilidade dos solos, na retenção de carbono, na prevenção de incêndios rurais e na manutenção de economias locais ligadas à pastorícia extensiva.
Ao proclamar 2026 como Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores, as Nações Unidas reconheceram também o valor cultural, económico e ambiental das comunidades pastoris, frequentemente associadas a territórios de montanha, zonas de baixa densidade e regiões historicamente marcadas pelo abandono demográfico.
A iniciativa pretende sensibilizar governos, instituições, investigadores e opinião pública para a necessidade de promover políticas de gestão sustentável das pastagens, reforçar a resiliência das comunidades e valorizar o conhecimento tradicional associado ao pastoreio extensivo.

MUITO MAIS DO QUE CRIAÇÃO DE GADO
A imagem tradicional do pastor isolado, associada a uma atividade quase residual, contrasta com a crescente relevância internacional atribuída à pastorícia extensiva enquanto instrumento de equilíbrio ecológico e ordenamento do território.
Segundo a FAO, os sistemas pastoris contribuem diretamente para a segurança alimentar, para a preservação de ecossistemas frágeis e para a adaptação às alterações climáticas. Em muitas regiões do mundo, os pastores continuam a desempenhar um papel determinante na gestão sustentável da paisagem através da mobilidade dos rebanhos e do conhecimento acumulado ao longo de gerações.
As pastagens naturais funcionam ainda como importantes reservas de biodiversidade e armazenamento de carbono, sendo consideradas fundamentais em estratégias globais de mitigação das alterações climáticas e combate à desertificação.
Ao mesmo tempo, estes territórios enfrentam pressões crescentes provocadas pela intensificação agrícola, abandono rural, urbanização, degradação dos solos e fenómenos climáticos extremos.
PORTUGAL E A PAISAGEM MOLDADA PELO PASTOREIO
Em Portugal, a relação entre território, pastorícia e identidade cultural possui raízes profundas. Das serras do Norte aos sistemas agro-silvo-pastoris do Sul, a presença do pastoreio extensivo ajudou a moldar paisagens, práticas comunitárias, gastronomia e património imaterial.
Em regiões interiores de Trás-os-Montes ao Alentejo, o pastoreio continua associado à manutenção de raças autóctones, à produção de queijo artesanal, à gestão de baldios e à ocupação humana de territórios particularmente vulneráveis ao despovoamento.
A própria prevenção de incêndios rurais surge hoje frequentemente associada ao papel desempenhado pelos rebanhos na redução de carga combustível e na limpeza natural das áreas florestais.
Nos últimos anos, vários projetos portugueses ligados à valorização da pastorícia extensiva, conservação da biodiversidade e gestão sustentável da paisagem têm vindo a ganhar visibilidade internacional. O lançamento do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores em Portugal motivou já iniciativas em territórios como a Serra do Alvão, Bragança ou o Norte Interior.

CONHECIMENTO TRADICIONAL E FUTURO SUSTENTÁVEL
Uma das dimensões mais relevantes do Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores passa pelo reconhecimento do conhecimento tradicional acumulado pelas comunidades pastoris.
Num contexto global marcado pela emergência climática, desertificação e erosão da biodiversidade, organizações internacionais e centros de investigação têm vindo a defender que muitos sistemas pastoris tradicionais incorporam práticas de gestão sustentável da paisagem desenvolvidas ao longo de séculos.
A mobilidade dos rebanhos, o uso equilibrado dos recursos naturais, a adaptação às condições climáticas e o profundo conhecimento do território fazem parte desse património técnico e cultural.
A FAO sublinha igualmente que o futuro das pastagens depende de políticas públicas capazes de garantir acesso à terra, apoio técnico, investimento responsável, serviços veterinários adequados e condições económicas que permitam a continuidade da atividade.
Mais do que uma celebração simbólica, o Ano Internacional das Pastagens e dos Pastores pretende afirmar a relevância contemporânea de territórios e profissões frequentemente tratados como marginais num mundo cada vez mais urbano. No fundo, trata-se também de uma discussão sobre soberania alimentar, gestão sustentável da paisagem, coesão territorial e relação humana com a terra.


