À primeira vista, nada faria prever o que se escondia naquele edifício degradado no coração de Loulé. Durante décadas, foi apenas mais uma casa aparentemente comum, acompanhada por um amplo quintal. No entanto, a sua aquisição pela autarquia, em 2005, marcou o início de uma verdadeira viagem no tempo: uma história feita de escavações, descobertas e revelações surpreendentes.
Pouco a pouco, à medida que os trabalhos arqueológicos avançavam, começaram a emergir vestígios de um passado há muito esquecido. O que parecia ser apenas uma construção modesta guardava, afinal, dois segredos extraordinários. O primeiro revelou uma casa senhorial do século XV, que mais tarde se percebeu ter pertencido à família Barreto, ligada ao Morgado de Quarteira. Mas o segundo segredo, ainda mais antigo e inesperado, encontrava-se oculto sob os alicerces dessa residência: um complexo de banhos públicos (hammam) de época islâmica, notavelmente bem preservado, sendo, até ao momento, o único conhecido em Portugal, classificado como Monumento Nacional.
UM MERGULHO NO PASSADO ISLÂMICO DE LOULÉ
Construído entre o início e meados do século XII, pouco depois da muralha da cidade, o hammam de Loulé testemunha a importância da cultura islâmica na região. A sua localização não foi fruto do acaso, encontra-se localizado próximo de uma das portas da cidade e de uma fonte de água, reunindo assim as condições ideais para servir a população.
O edifício dos banhos, construído parcialmente enterrado, de modo a conservar melhor o calor, era composto por cinco salas: vestíbulo, sala fria, sala tépida e sala quente, além de um espaço destinado à fornalha. O percurso do utilizador seguia uma lógica progressiva de aquecimento, começando na sala fria e terminando na sala quente, onde o banho propriamente dito tinha início.
A engenharia do espaço revela um conhecimento sofisticado. Os pavimentos das salas quente e tépida eram aquecidos por um sistema de hipocausto, que fazia circular ar quente por baixo do chão. A água era conduzida por canalizações embutidas nas paredes, enquanto o fumo era evacuado por chaminés internas.
As salas húmidas seriam cobertas por abóbadas, atualmente desaparecidas, com pequenas aberturas que permitiam a entrada de luz. Hoje é possível observar os vestígios arqueológicos destas salas e imaginar a vida quotidiana que ali decorria quando o edifício estava em uso.
Sob uma casa aparentemente comum, escondia-se o único hammam público islâmico conhecido em Portugal, hoje classificado como Monumento Nacional.


Construído no século XII, o complexo integra cinco salas e um sistema de hipocausto que aquecia os pavimentos através da circulação de ar quente.
ENTRE O ESPLENDOR SENHORIAL E O ESQUECIMENTO
Séculos mais tarde, já no século XV, os banhos islâmicos estavam em ruínas e tinham caído no esquecimento. Foi então que Gonçalo Nunes Barreto ali construiu uma casa senhorial autorizado por D. Afonso V, em 1462.
A residência, inicialmente em forma de “L”, organizava-se em torno de um pátio interior e apresentava elementos arquitetónicos marcantes, como arcarias sustentadas por colunas de pedra trabalhada. Ao longo do tempo, a casa foi sendo ampliada.
Os capitéis das colunas encontram-se decorados com motivos simbólicos associados ao cristianismo. Um dos capitéis exibe o brasão da família Melo, ligada aos Barreto por casamento.
A casa entrou em declínio a partir do século XVII, acompanhando a perda de influência da família. Seguiram-se períodos de abandono, adaptações e alterações que descaracterizaram o edifício original. No entanto, alguns elementos arquitetónicos subsistem ainda hoje e podem ser vistos no local.
UM PASSADO QUE VOLTA À VIDA
Foi apenas no século XXI que este espaço recuperou a sua importância, desta vez como lugar de fruição patrimonial e de memória histórica. Hoje, transformado em núcleo museológico, convida visitantes a descobrir as várias camadas de ocupação que ali se sobrepõem.
Mais do que um simples espaço museológico, os Banhos Islâmicos e Casa Senhorial dos Barreto são um testemunho vivo da riqueza cultural de Loulé, um lugar onde o passado, outrora escondido, se revela agora a todos.


No século XV, sobre as ruínas dos banhos, foi erguida a casa senhorial da família Barreto,
marcando a sobreposição de duas épocas distintas no mesmo espaço.

