ENTRE O SILÊNCIO E A MEMÓRIA: IDENTIDADE JUDAICA EM VILARINHO DOS GALEGOS

ENTRE O SILÊNCIO E A MEMÓRIA: IDENTIDADE JUDAICA EM VILARINHO DOS GALEGOS

Em Vilarinho dos Galegos, aldeia do concelho de Mogadouro, tal como em tantas outras localidades do interior de Portugal, a identidade judaica sobreviveu durante séculos num espaço de silêncio, de resguardo e de gestos mínimos. Esse silêncio não foi um traço cultural espontâneo, mas resultado de um passado em que a vigilância religiosa e social obrigou muitas famílias de origem judaica a esconder práticas, palavras e crenças, deslocando-as do espaço público para o interior das casas.

António Pimenta de Castro relata, num dos seus muitos artigos, um episódio ocorrido durante uma entrevista a Olivia Tabaco, de seu nome Olívia Adelaide Lopes (n.06/08/1909; f.17/02/1999). Encontravam-se a conversar na rua, quando, de repente, surgiu um homem que passava ocasionalmente. Nesse momento, Olivia Tabaco interrompeu a conversa sobre as tradições marranas e começou a falar das suas doenças. Quando o transeunte se afastou, disse ao autor: “este não é da nossa raça, é “chuço”. Era este termo utilizado em Vilarinho dos Galegos para designar aqueles que não eram criptojudeus.

A identidade judaica local não se manteve através de textos escritos ou de ensinamentos formais, mas sobretudo pela oralidade, pela prática doméstica e pela repetição de rituais quotidianos. Em contextos marcados pela suspeita, foram os pequenos gestos – discretos, muitas vezes noturnos, quase invisíveis – que garantiram a continuidade da tradição. As mulheres tiveram um papel central nesse processo, assumindo a função de guardiãs da memória, transmitindo rezas, hábitos e regras que raramente eram explicadas, mas rigorosamente respeitadas.

No caso de Vilarinho dos Galegos, destaca-se o trabalho do capitão Artur Carlos de Barros Basto, que, nas primeiras décadas do século XX, se empenhou na preservação da memória e no resgate das comunidades criptojudaicas do Norte e Interior de Portugal. Investigadores como Barros Basto procuravam, assim, no Portugal profundo, identificar e apoiar comunidades que haviam sobrevivido à perseguição inquisitorial, a que hoje designamos por criptojudeus.

Outro espaço fundamental dessa memória foi a casa de Guilhermina Augusta Almeida (n.20/03/1920; f.01/09/2002), que, em criança, procurava acompanhar a irmã mais velha, Raquel Almeida, para assistir aos rituais e rezas, que se celebravam na Casa da Praça (hoje Largo da Praça).

Hoje, a casa de Guilhermina Almeida, pertence à sua afilhada e sobrinha, Lina Marins Almeida Santos. Lina já não pratica as rezas nem conhece as palavras que ali foram sussurradas durante décadas. Ainda assim, a herança não se perdeu por completo. Ela própria recorda-se de ver a tia não sacudir a toalha da mesa à noite. O gesto mantém-se porque “sempre foi assim”.

Este tipo de prática revela como a identidade judaica, em contextos de repressão prolongada, se deslocou do plano de crença explícita para o plano de conduta quotidiana. Mesmo quando a reza se esquece, o gesto resiste.

Em Olívia Tabaco, Guilhermina Almeida e Lina Almeida Santos reconhecem-se diferentes momentos de uma mesma linhagem feminina: da reza secreta à reunião doméstica, e desta ao simples cuidado com os restos alimentares. Todas participam consciente ou inconscientemente, na preservação de uma identidade que não desapareceu: apenas aprendeu a viver no recato.

Emanuel Campos,
Arqueólogo do Município de Mogadouro

www.mogadouro.pt

Cultura e Património